Cadê meu troco de 1 centavo?

O que é meu eu quero tin tin por tin tin!


Por que os supermercados não devolvem o troco de 1 centavo? Se eles não têm esta moeda em caixa, por que não precificam seus produtos só com valores redondos?

Eu sempre tive este questionamento. Talvez você ache que não faz sentido se preocupar com moedinhas de 1 centavo, afinal, o valor é insignificante. Mas é insignificante mesmo? Vamos a alguns fatos:

1. Se você somasse todos os trocos de 1, 2, 3 e 4 centavos que não recebeu em seu vida inteira, quanto daria?

2. Os supermercados realizam várias vendas por dia com várias formas de pagamento, entre elas, em dinheiro. Pensando nas compras pagas em dinheiro e numa rede grande como o Wall Mart, que possui filiais no mundo todo, quantos trocos de 1, 2, 3 e 4 centavos ficam para eles por dia? O que representa este montante no final de 1 mês? E ao final de 1 ano?

3. Quando nós, consumidores, vamos pagar nossa compra, eles aceitam valor menor que o total? Nem que seja algo insignificante como 1, 2, 3 ou 4 centavos? É claro que não. Então por que eu e você estamos OK com o troco a menos?

Agora, o fato que mais me cutuca a cuca:

- No computador do caixa fica registrado o valor exato de sua compra;

- Por exemplo: sua conta deu R$ 90,87. Você paga com uma nota de R$ 100,00. O atendente te retorna R$ 9,10 AO INVÉS DE R$ 9,13;


- Ou seja, para a empresa ficou R$ 90,90;


- MAS no sistema consta exatos R$ 90,87. Logo, para todos os efeitos, é este o valor que fará parte dos registro de receita do supermercado - R$ 90,87;


- E os outros 3 centavos?


- Os outros 3 centavos não estão "oficialmente" registrados, é como se nunca tivessem entrado no caixa da empresa. Mas entraram!


- E se os 3 centavos não são oficiais eu pergunto: incide imposto sobre eles ou o quê?


Esse papo de "valor insignificante" é conversa furada. Se os 1 centavos fossem insignificantes mesmo, os empresários precificariam todos os seus produtos com valores terminados em 0 e 5. O problema do troco a menos estaria definitivamente resolvido e estes centavos insignificantes não incomodariam entrando extraoficialmente no caixa deles.

Preços "quebrados" não acontecem por acaso. No final das contas, os centavos que eu e você ignoramos formam uma fonte extra de dinheiro para os varejistas. É óbvio que eles já notaram isso - muito antes de qualquer um de nós - e fazem o que fazem intencionalmente.

Acaba que entregamos de mão beijada uma gorda gorjeta involuntária. É muito estranha e torpe essa cultura, e nós deveríamos realmente acabar com ela. Ao invés de nos darem troco a menos, que nos deem troco a mais. Afinal, 1 ou 2 centavinhos não importam mesmo, né? Então, se minha compra der R$ 90,87 e você não tiver 3 centavos para me devolver nos MEUS exatos R$ 9,13, me devolva R$ 9,15 e estamos OK. Dois centavos a menos no seu caixa não farão a menor diferença.


Grace and Frankie e "meu deus, eu vou ficar velha!"

Uma ode à vida e suas loucas mudanças.


Todo mundo quer viver muito, mas ninguém quer ficar velho. Velhice é sinônimo de perda do vigor sexual, da elasticidade da pele, da cor dos cabelos, da força dos ossos, da beleza. É sinônimo da chegada de um monte de doenças, da falta de visão e audição, da lentidão dos reflexos e por aí vai. Agora, pior do que envelhecer, é envelhecer sozinho. E é nessa ferida maldita que Grace and Frankie toca.

Duas mulheres com suas vidas resolvidas e seus mundos nos lugares que deveriam estar. Quarenta anos de casamento, filhos criados. Famílias não tão perfeitas, mas nenhuma família é perfeita. Grace e Frankie são senhoras que já sabem como terminarão seus dias e estão super de bem com isso. Até que toda a certeza que elas têm é jogada pelo ralo. Seus maridos não apenas anunciam a separação como também anunciam que vão se casar – um com o outro.

Consegue imaginar isso?

Tem um questionamento que a série traz que eu achei bem interessante. Como os maridos se separam para formar um casal gay, todos os outros personagens da série se seguram para não ficar bravos ou em não demonstrar o quanto estão bravos. Uma coisa é um marido abandonar a esposa pra ficar com A amante. Isso dá o direito de que todos os envolvidos fiquem com raiva. Outra coisa é um marido abandonar a esposa pra ficar com O amante. Demonstrar raiva aqui seria tomar partido da homofobia. O que você faria se fosse esta esposa (ou esposo) abandonado por alguém do mesmo sexo do seu cônjuge?

A minha resposta é: eu ficaria devastada, muito mais devastada do que se fosse para outra mulher. E o porquê dessa resposta vem de uma pergunta de Frankie: "Então tudo foi uma mentira?".

A ideia de ter passado 40 anos de sua vida transando e convivendo com alguém que não só não queria estar contigo como provavelmente não se sentia remotamente sexualmente (sinceramente) atraído por você é de matar. Some-se a isto o quesito envelhecer e morrer sozinho e temos a fórmula do desespero total. Não se trata de homofobia, estamos falando de dor e coração partido mesmo. Tudo isso dá sim o direito de ficar bravo e de demostrar que está bravo.

É claro que nada é simplesmente preto ou branco. Como a série também mostra, a decisão dos maridos de "postergar" o abandono vinha do amor que eles tinham por suas famílias e suas esposas. Ora era um neto que nascia, ora era uma esposa que abria seu coração e pedia uma reconciliação. Isso, claro, sem pensar nas questões tão óbvias de preconceito e aceitação que os amantes teriam que enfrentar.

Grace and Frankie é, obviamente, mais um acerto da Netflix. O roteiro não se contenta em mostrar apenas um lado da moeda. Nós assistimos todos os ângulos da história e sentimos os temores de cada personagem. As esposas estão destruídas e humilhadas. Mas os maridos não estão tão felizes assim. Sim, eles se sentem aliviados por finalmente tirarem das costas o fardo que carregaram por 20 anos, mas cada um sente falta da ex-esposa e cada um leva seu próprio tempo para se adaptar à nova vida. A nova vida significa mais liberdade, mas também significa renúncia dos prazeres e alegrias da vida anterior. É em Sol que vemos a maior dificuldade de seguir em frente, mas o forte Robert também tem seu momento de fraqueza e se derruba em lágrimas em público quando não consegue mais manter as aparências. Tão humano, não?

Depois da separação, do choque e do medo de morrer sozinha, vem as tentativas de seguir em frente. Como dizem, estar velho não é estar morto. E se não está morto, há esperança. Jane Fonda e sua (elegantérrima) Grace prosseguem com mais facilidade. Enquanto isso, Lily Tomlin e sua Frankie, que pareciam mais "zen" e propícias a darem logo uma volta por cima, são as que mais sofrem sem querer se desapegar do passado. Igualzinho da vida real: as aparências enganam. Além disso, ao contrário da nova colega de quarto, ela perdeu dois amores: o marido e o melhor amigo. Punhalada dupla nas costas.

Por último, os filhos dos casais têm seus universos para lidar. Entre drogas, mães adotivas e amores mal resolvidos, eles precisam dar suporte aos pais sem sobrecarregá-los com seus problemas. Pelo que parece, a trama deles promete mais para a segunda temporada. Mas, de antemão, eu já quero deixar minha aposta: tô jurando de pé junto que Brianna (a carente) e Nwabudike (o nome impronunciável) vão acabar se cruzando – no sentido literal mesmo.

Esta série se mostrou muito bem estruturada. É dispensável comentar sobre o porte dos atores escalados – Jane Fonda, Lily Tomlin, Sam Waterston e Martin Sheen. São atores tão fodásticos e se encaixaram tão bem em seus papéis, que só resta pedir a Deus que consigam se manter profissionais enquanto a série durar pra gente não acabar tendo um vexame de estrelismo que nem o atual de The Good Wife (e o de tantos outros exemplos de egos infinitos de Hollywood). Mas vamos parar de fica jogando zica em cima de G&F, né?

No mais, meus sinceros agradecimentos à Netflix por mais uma série maravilhosa. Uma verdadeira ode à vida e suas loucas mudanças. Roteiro impecavelmente humano, merecedor de lágrimas, aplausos e muitas saudades até a chegada da próxima temporada.

E, sim, eu quero viver muito, não, não quero ficar velha, e não, não quero ficar velha sozinha. Vai entender.



Lugar de estagiário é na senzala


Estudo Administração desde 2011 e venho procurando um estágio na área privada. Isso tem cerca de um ano. Nesse meio tempo, estou estagiando numa empresa pública, ou seja, assim que acabar o meu contrato é tchau e benção. Pelo menos, para o meu consolo, o local onde trabalho é ótimo. Meus chefes são educados, atenciosos, e desde que entrei na empresa tenho oportunidade de perguntar, aprender, tomar iniciativas. Tive muita sorte. Nem todo mundo pode dizer o mesmo do primeiro estágio e do primeiro chefe. Eu tenho colegas da minha sala de aula cujos patrões não permitiam lanchar entre as 6 horas de trabalho. Sim, é verdade. E é numa empresa de mais de 8 bilhões de dólares.

Neste artigo desabafarei sobre minhas experiências ruins na procura por um novo estágio. Comentarei sobre os anúncios das vagas, sobre os processos seletivos, sobre o que os chefões esperam de nós candidatos. Depois de tanta entrevista feita em 14 meses, já passei por quase tudo. E cada vez mais observo que o empresário brasileiro não dá a mínima para o estagiário e para a lei que o protege. Por favor, dane-se o estagiário. Ele tem direitos? Aham tá. A regra é jogar o jovem universitário na selva e deixar que os leões façam a festa.

Anúncios de vagas

Nunca vi coisa mais vaga. Anúncio de estágio é a definição de arte abstrata. Pelo menos para os de Administração não falam a área, não especificam as funções do estagiário, o salário proposto, o que exatamente ele deve saber.

No final de 2012 eu participei de um processo numa multinacional. Pelo tamanho da empresa, imaginei que estagiário realmente fosse estagiário lá. O anúncio da vaga não falava nada (nem área, nem salário, nem horas por dia), apenas dizia que existia a oportunidade. Então, depois de viajar 1 hora e 40 minutos de ônibus, cheguei antes das 8, fui para o auditório, vi um vídeo sobre a beleza da companhia, respondi um questionário com todos os meus dados pessoais, fiz um teste psicológico, esperei até me aprovarem nele, almocei no refeitório deles, fiz uma entrevista com a psicóloga, descobri que o salário era R$ 500,00 por 6 horas diárias. Àquela altura eu estava aceitando tudo. Murchei pelo valor mísero, mas pensei: o esforço valerá à pena. Saí de lá por volta das 16 horas.

Voltei no dia seguinte para entrevista com o gestor da área. Só aí descobri que era para Logística, e descobri também que ele não aceitava um estudante que se interessasse por outra área. No meu caso, a minha preferida é Finanças, embora na prática eu esteja disposta a trabalhar em qualquer uma. Então aí você me fala a óbvia: se essa não era a sua área, não tem do que reclamar, linda. A vaga não tinha nada a ver contigo e pronto acabou. E sabe de uma coisa? Concordo contigo. Eu adoraria não ter perdido 2 dias da minha vida correndo atrás de algo que a empresa nunca estaria disposta a me dar. Contabilizando 1 hora e 40 minutos de ida e volta no primeiro dia, mais ida e volta do segundo dia, mais o valor da passagem do ônibus, mais o tempo que fiquei esperando entre as fases, quanto de tempo, dinheiro e energia que perdi?

Pensando pelo lado da empresa, o quanto eles economizariam se não me tivessem lá no processo seletivo? Seja pelo salário de 500 reais, pela distância imensa, pela área incompatível, eu seria um candidato a menos a ser avaliado. Com essas informações no anúncio, outros candidatos que se encaixam neste perfil se interessariam e compareceriam. Mas pra que pensar nisso, né? Se atrapalhar e atrapalhar a vida do universitário é a ordem do dia. E, meus caros, quem dera essa fosse minha única experiência no "ramo". Já fui parar até em entrevista de empresa de telemarketing pagando 500 pilas pra ficar 6 horas atentando coitados por telefone sem saber onde estava entrando. Acha que essas preciosas informações constavam no anúncio? Ai ai.

Os processos seletivos

Não sou psicóloga e não tenho conhecimento pra julgar as técnicas usadas. Sei que tudo visa filtrar o candidato ideal e diminuir o número de pessoas o máximo possível para as fases finais. Mas tudo tem limite. Tem empresa que faz o indivíduo fazer várias fases em vários dias diferentes, e a verdade é que até o estudante tem vida e obrigações. Sim, empresas, nós também temos o que fazer! Já participei de um caso onde não revelaram nada sobre a vaga em momento algum. A entrevista com o gestor era a última etapa (de cinco!), então só lá que saberiam do que se tratava de verdade. Para que o mistério? Boa pergunta. De fato estávamos, eu e mais de 100 pessoas, nos candidatando para uma vaga de função qualquer, de salário qualquer, de horário qualquer. Estava escrito na nossa testa que não tínhamos prioridade nenhuma e aceitaríamos qualquer coisa que quisessem nos dar.

Tive o prazer também de ficar esperando duas horas pelo entrevistador. Tive o prazer também de ter um entrevistador mais nervoso do que eu que nem fazia ideia do que perguntar. Tive o imenso prazer de ser entrevistada por um gestor de uma empresa gigante que tinha determinado problema na produção de sua fábrica. Ele falou para mim a situação – com um vocabulário totalmente técnico – e me perguntou se eu tinha uma solução. A minha resposta foi: estou aqui para aprender contigo, ou seja, seu papel é saber e me ensinar, não o contrário (fui boa menina e só falei a 1ª parte). Ele não gostou. Usei conceitos que havia aprendido em artigos da faculdade para uma resposta adequada. Ele não gostou. A verdade é que eu, candidata a estagiária, logo, inexperiente, nunca tinha pisado o pé dentro de uma fábrica, nem tampouco tinha a solução para o problema dele. Aliás, se tivesse, estaria me candidatando para o cargo dele, obviamente.

Curioso foi ver este gerente descartar de cara a política da empresa dele. Eu havia estudado tudo sobre ela, li o site, vi vídeos. Assim que citei parte da missão e visão dela, no entanto, ele desconsiderou tudo e disse que nada funcionava daquele jeito. Acho que na hora esqueci até como respirar.

Perguntas como (1) se você fosse um animal, qual seria, e (2) por que você escolheu esta empresa bem que poderiam ser banidas. A 1, pelo amor de deus! Não é possível que não exista algo mais palpável para a "aplicação psicológica" de tal questão. Usá-la deve ser falta de estudar outros meios mais inteligentes de descobrir mais sobre a personalidade do entrevistado. A 2 é a mais idiota do planeta. Talvez lá em 1950 fosse comum alguém sonhar em trabalhar em determinada empresa. Tenho vontade de sair gargalhando da sala quando vejo o entrevistador esperando que eu diga que a empresa dele está nos meus sonhos desde que eu estava no útero da minha mãe. É tudo uma grande merda. A empresa não era sonho nem do próprio entrevistador. Hoje cada um procura o melhor para si e ponto. Por que é que eu passaria a minha vida sonhando em trabalhar na sua empresa? Qual a lógica disso? A gente sonha com casa, família, filhos, felicidade, profissão bem sucedida. Com uma empresa? Por favor.

Querer saber onde a pessoa se vê em 5 anos faz sentido. Acho muito difícil alguém saber, de fato, uma resposta para isso (vontade e oportunidade nem sempre são amigas e a gente sabe disso), mas penso comigo que todo mundo vislumbra grandiosidade. Basicamente, a resposta deve ser a mesma, ter o mesmo tom. Se os entrevistadores querem continuar a ouvir isso, ok. Boa sorte pra eles. O que eu não tolero, no entanto, é começarem as perguntas de cunho íntimo. Qualquer coisa que queiram saber demais abre espaço para discriminação. Já me perguntaram se eu acreditava em Deus e se eu tinha namorado. Se eu respondesse que sou ateia seria desclassificada? Se eu respondesse que tenho namorada seria desclassificada? E, na prática, o que querem com isso? Que importa se eu adoro as vacas quando tenho o que é preciso para o trabalho? Por que interessa a eles se estou namorando quando já deixei claro no currículo que não sou casada e não tenho filhos?

Tenho uma colega de faculdade que já conduziu entrevistas de emprego. Perguntei à ela qual é o propósito da questão "o que você gosta de fazer nas suas horas livres?", e ela respondeu que se a pessoa disser "dormir" pode indicar que ela dorme demais e só vai chegar atrasada. Não posso deixar de dizer que isso é uma grande piada. Então se eu disser que gosto de sair com amigos e família significa que eu vou faltar trabalho para vadiar? Que resposta exatamente eles esperam então? Ah, eu não gosto de horas vagas, não consigo parar de trabalhar... Só se for, né. Trabalho é trabalho, hora vaga é hora vaga. Você não vai saber o quanto o candidato é comprometido com o trabalho dele até que ele seja o seu empregado, e isso independe do fato de ele gostar de frequentar clubes de sadomasoquismo nos finais de semana ou de virar travesti de madrugada. Aceite logo que dói menos.

Outra pergunta horrorosa que me fizeram foi: você é honesta? Gente, por tudo o que é sagrado. Que candidato vai responder não, sou ladrão com muito orgulho e muito amor? Depois que ouvi isso eu nem sabia como responder. O que é que o patrão esperava ouvir? Há mais de um jeito de dizer em 1 minuto se você é honesto ou não?

Nessa mesma entrevista este mesmo empresário me perguntou se eu era uma moça de família. Ele foi enfatizando tanto a pergunta, que logo notei algo estranho: sabendo que eu era solteira e sem filhos, será que ele queria saber se eu era virgem? O que ele tinha em mente para "moça de família"? E, pelos pregos da cruz de Jesus, o que isso tinha a ver com o cargo? Foi uma das coisas mais esdrúxulas que tive que responder. De repente, eu, que desprezo qualquer religião, estava citando a religião dos meus pais como "referência" porque nem tinha ideia do porquê que aquela criatura só queria contratar moça de família.

Por último, participei de um processo seletivo, feito por um Agente de Integração (art. 5º da Lei nº 11.788), que tinha prova de português, matemática financeira e lógica. Além de exigirem que fizéssemos os cálculos financeiros sem a HP 12C, vi que candidatos que já haviam feito a prova foram chamados para refazê-la. As questões eram exatamente as mesmas, e mesmo assim os que já sabiam o que iriam encontrar estavam concorrendo de "igual para igual" com quem chegou lá pela primeira vez. Quanto à proibição da calculadora, a psicóloga que aplicou a avaliação sentou-se à mesa, abaixou a cabeça e deixou a coisa rolar solta. Quem estava lá pela 2ª ou 3ª vez sabia as respostas e levou a HP. No final, devem ter contratado quem trapaceou e acertou tudo.

Mas você não teve nenhuma entrevista que não fosse bizarra, Arlane?

Tive, gente. Também encontrei gente educada, que não fazia aquele mistério digno de caça ao tesouro, que respeitava o meu tempo e me fazia perguntas pertinentes à situação. Só para ilustrar, vou citar o caso do meu atual chefe. Eu fui a 6ª opção dele para o cargo e ele não tinha pressa para contratar. No anúncio constavam todas as informações necessárias. Na nossa conversa, em momento algum ele me fez uma pergunta pessoal, só quis saber o básico: estado civil, filhos, mora com os pais. Até imaginei que ele estava com pressa de terminar a entrevista por causa disso, mas depois descobri que esta é a natureza e inteligência dele. O homem foi direto ao ponto: a função é esta, o horário é este, é isto o que eu preciso, o que você sabe fazer, você está disposta a trabalhar assim. Curto, objetivo, simples. Leu o meu currículo de verdade, prestou atenção no que escrevi, constatou que era aquilo o que procurava, me contratou. Pronto. Não doeu e não arrancou pedaço de ninguém.

O que os chefões esperam de nós candidatos

Como este artigo é para desabafar sobre a parte de terror dos estágios, vamos voltar às coisas ruins. Dias atrás fui numa entrevista. O anúncio dava as seguintes informações:

Horário de trabalho: diurno
Salário: entre R$ 1.000,00 e R$ 2.000,00
Cargo: estagiário
Função: coletar os números da empresa, manipular dados e fazer planilhas no Excel

Lendo isso, enxerguei o trabalho perfeito para mim. Na entrevista, porém, a promessa da terra prometida virou o caldeirão fervente do inferno:

Horário de trabalho: 8 horas por dia
Salário: R$ 1.200,00
Cargo: funcionário sem carteira assinada e sem direitos
Função: ser o único analista de uma empresa que fatura em média R$ 2 milhões por mês

Minha cara caiu no chão. Mas quem dera este fosse o único caso de loucura dos empresários. Vão aqui mais alguns "requisitos" para ser "estagiário" no Brasil:
  1. Ter carteira de habilitação;
  2. Ter carro próprio;
  3. Inglês avançado;
  4. Ter experiência na área;
  5. Flexibilidade de horário;
  6. Disponibilidade para viajar.
Cobrar CNH e carro próprio de pessoas na faixa de 17 a 25 anos é um pouco utópico, não? Eu pelo menos imagino que os candidatos a estágio estão começando suas vidas profissionais. A não ser que tenham pais que dão conta de bancar tais luxos, eles devem ser mágicos para tirar um carro de dentro da cartola. O inglês avançado, ou inglês fluente, é um exagero que as empresas adoram. Na prática, nenhuma empresa adota o dia do "só pode falar inglês até nas conversas de corredor". É claro que inglês é fundamental, mas o inglês fluente para um estagiário não é essencial como querem dizer que é. Para falar sobre os tópicos 4, 5 e 6, vamos mencionar a lei 11.788/2008.

"Ter experiência na área": Estágio é o ato educativo escolar supervisionado, desenvolvido no ambiente de trabalho, que visa à preparação para o trabalho produtivo de estudantes (art. 1º e seu § 1º). O estágio visa ao aprendizado de competências próprias da atividade profissional e a contextualização curricular, objetivando o desenvolvimento do educando para a vida cidadã e para o trabalho (§ 2º do art. 1º).

Se o estágio visa ao aprendizado, por que é que tem gente que só contrata se a pessoa já souber como fazer?

"Ter flexibilidade de horário" / "disponibilidade para viajar": A jornada de atividade em estágio será definida de comum acordo entre a instituição de ensino, a parte concedente e o aluno estagiário ou seu representante legal, devendo constar do termo de compromisso ser compatível com as atividades escolares e não ultrapassar: 4 (quatro) horas diárias e 20 (vinte) horas semanais, no caso de estudantes de educação especial e dos anos finais do ensino fundamental, na modalidade profissional de educação de jovens e adultos; 6 (seis) horas diárias e 30 (trinta) horas semanais, no caso de estudantes do ensino superior, da educação profissional de nível médio e do ensino médio regular (art. 10).

Ou seja, trabalhar 8 horas por dia, viajar, ficar "mais um pouquinho" depois do expediente com frequência... está tudo errado. De acordo com a própria lei, estágio NÃO possui vínculo empregatício, mas, caso alguma parte da Lei seja extrapolada, o vínculo passa a ser empregatício SIM: A manutenção de estagiários em desconformidade com esta lei caracteriza vínculo empregatício do educando com a parte concedente do estágio para todos os fins da legislação trabalhista e previdenciária (§ 1º do art. 15). Então, chamar qualquer coisa além de 6 horas diárias de estágio é abusar da sua mão de obra barata, colega universitário.

Do outro lado da equação, mas que ainda vale à pena citar, tem o empregador que quer contratar um estudante de nível superior para exercer atividades aquém do que ele deve. Por exemplo, me ofereceram um estágio para escanear um quarto cheio de processos por 6 meses, sendo que eu, além de estudante de Administração, já havia passado da metade do meu curso. A ironia da coisa era que o salário era bom pra cacete... Não aceitei a proposta e isso tudo me deixou extremamente frustrada: como podem desperdiçar talentos desta forma? Não percebem que estão jogando dinheiro fora? Se o objetivo do estágio é o aprendizado de competências próprias da atividade profissional e a contextualização curricular, colocar um universitário para escanear papel condiz com seu extrato curricular? Em que curso mesmo ensinam a arte do escaneamento?

Conclusão

O estagiário pode ser um grande aliado. Ele é um indivíduo inexperiente que chega na empresa como um "copo meio vazio". O patrão que está disposto a ensinar tem a chance de encher este copo com seus valores e conseguir um futuro funcionário na medida do que ele necessita. Enquanto polir um inexperiente pode ser contado como desvantagem, não ter que se preocupar com seus direitos trabalhistas é a vantagem. A lei do estágio não define nem tampouco exige salário para o estagiário, deixando aí uma brecha para contratar uma mão de obra bem mais barata. Olhar para esta brecha com profissionalismo é diferente de olhá-la com oportunismo. O oportunista quer burlar a lei e pagar o mínimo por um profissional pronto, disposto a dar o sangue, a alma e os olhos da cara. Já o profissional tem perspectiva, respeito, ética e visão de futuro. E é deste último tipo que nós, jovens brasileiros, precisamos.


P.S.1: Quando você, estagiário que lê este texto, for empresário, não vá para o lado negro da força. Explore a força de trabalho respeitando-a. Lugar de estagiário não é na senzala.

P.S.2: Informe-se. Leia a Lei do Estágio.

Texto de 23 de fevereiro de 2014.

 

O Blog

Louca Varrida é um blog onde a louca fala de tudo sobre a loucura dela e a normalidade alheia. Saiba mais.


É EXPRESSAMENTE PROIBIDO A CÓPIA DO CONTEÚDO DESTE BLOG. RESPEITO, POR FAVOR.

Contato

Para dar ideias de temas, dizer que o que eu escrevo não faz sentido, dizer que o que eu escrevo faz sentido, me dar bom dia, me mandar um abraço, me dar a receita de qualquer comida que tenha chocolate e não tenha coco, falar sobre o que der na telha ou te for pertinente: aloucavarrida@gmail.com. Fale comigo que eu te respondo.

Copyright © 2009 Louca Varrida All rights reserved.
Converted To Blogger Template by Anshul Theme By- WooThemes