Grace and Frankie e "meu deus, eu vou ficar velha!"

Uma ode à vida e suas loucas mudanças.


Todo mundo quer viver muito, mas ninguém quer ficar velho. Velhice é sinônimo de perda do vigor sexual, da elasticidade da pele, da cor dos cabelos, da força dos ossos, da beleza. É sinônimo da chegada de um monte de doenças, da falta de visão e audição, da lentidão dos reflexos e por aí vai. Agora, pior do que envelhecer, é envelhecer sozinho. E é nessa ferida maldita que Grace and Frankie toca.

Duas mulheres com suas vidas resolvidas e seus mundos nos lugares que deveriam estar. Quarenta anos de casamento, filhos criados. Famílias não tão perfeitas, mas nenhuma família é perfeita. Grace e Frankie são senhoras que já sabem como terminarão seus dias e estão super de bem com isso. Até que toda a certeza que elas têm é jogada pelo ralo. Seus maridos não apenas anunciam a separação como também anunciam que vão se casar – um com o outro.

Consegue imaginar isso?

Tem um questionamento que a série traz que eu achei bem interessante. Como os maridos se separam para formar um casal gay, todos os outros personagens da série se seguram para não ficar bravos ou em não demonstrar o quanto estão bravos. Uma coisa é um marido abandonar a esposa pra ficar com A amante. Isso dá o direito de que todos os envolvidos fiquem com raiva. Outra coisa é um marido abandonar a esposa pra ficar com O amante. Demonstrar raiva aqui seria tomar partido da homofobia. O que você faria se fosse esta esposa (ou esposo) abandonado por alguém do mesmo sexo do seu cônjuge?

A minha resposta é: eu ficaria devastada, muito mais devastada do que se fosse para outra mulher. E o porquê dessa resposta vem de uma pergunta de Frankie: "Então tudo foi uma mentira?".

A ideia de ter passado 40 anos de sua vida transando e convivendo com alguém que não só não queria estar contigo como provavelmente não se sentia remotamente sexualmente (sinceramente) atraído por você é de matar. Some-se a isto o quesito envelhecer e morrer sozinho e temos a fórmula do desespero total. Não se trata de homofobia, estamos falando de dor e coração partido mesmo. Tudo isso dá sim o direito de ficar bravo e de demostrar que está bravo.

É claro que nada é simplesmente preto ou branco. Como a série também mostra, a decisão dos maridos de "postergar" o abandono vinha do amor que eles tinham por suas famílias e suas esposas. Ora era um neto que nascia, ora era uma esposa que abria seu coração e pedia uma reconciliação. Isso, claro, sem pensar nas questões tão óbvias de preconceito e aceitação que os amantes teriam que enfrentar.

Grace and Frankie é, obviamente, mais um acerto da Netflix. O roteiro não se contenta em mostrar apenas um lado da moeda. Nós assistimos todos os ângulos da história e sentimos os temores de cada personagem. As esposas estão destruídas e humilhadas. Mas os maridos não estão tão felizes assim. Sim, eles se sentem aliviados por finalmente tirarem das costas o fardo que carregaram por 20 anos, mas cada um sente falta da ex-esposa e cada um leva seu próprio tempo para se adaptar à nova vida. A nova vida significa mais liberdade, mas também significa renúncia dos prazeres e alegrias da vida anterior. É em Sol que vemos a maior dificuldade de seguir em frente, mas o forte Robert também tem seu momento de fraqueza e se derruba em lágrimas em público quando não consegue mais manter as aparências. Tão humano, não?

Depois da separação, do choque e do medo de morrer sozinha, vem as tentativas de seguir em frente. Como dizem, estar velho não é estar morto. E se não está morto, há esperança. Jane Fonda e sua (elegantérrima) Grace prosseguem com mais facilidade. Enquanto isso, Lily Tomlin e sua Frankie, que pareciam mais "zen" e propícias a darem logo uma volta por cima, são as que mais sofrem sem querer se desapegar do passado. Igualzinho da vida real: as aparências enganam. Além disso, ao contrário da nova colega de quarto, ela perdeu dois amores: o marido e o melhor amigo. Punhalada dupla nas costas.

Por último, os filhos dos casais têm seus universos para lidar. Entre drogas, mães adotivas e amores mal resolvidos, eles precisam dar suporte aos pais sem sobrecarregá-los com seus problemas. Pelo que parece, a trama deles promete mais para a segunda temporada. Mas, de antemão, eu já quero deixar minha aposta: tô jurando de pé junto que Brianna (a carente) e Nwabudike (o nome impronunciável) vão acabar se cruzando – no sentido literal mesmo.

Esta série se mostrou muito bem estruturada. É dispensável comentar sobre o porte dos atores escalados – Jane Fonda, Lily Tomlin, Sam Waterston e Martin Sheen. São atores tão fodásticos e se encaixaram tão bem em seus papéis, que só resta pedir a Deus que consigam se manter profissionais enquanto a série durar pra gente não acabar tendo um vexame de estrelismo que nem o atual de The Good Wife (e o de tantos outros exemplos de egos infinitos de Hollywood). Mas vamos parar de fica jogando zica em cima de G&F, né?

No mais, meus sinceros agradecimentos à Netflix por mais uma série maravilhosa. Uma verdadeira ode à vida e suas loucas mudanças. Roteiro impecavelmente humano, merecedor de lágrimas, aplausos e muitas saudades até a chegada da próxima temporada.

E, sim, eu quero viver muito, não, não quero ficar velha, e não, não quero ficar velha sozinha. Vai entender.



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